Market Update 05/26
Os preços aceleraram. Mas o volume já não acompanha.
Há dois números do INE de Abril que me ficaram a remoer.
O primeiro: os preços de transacção subiram 17,5% homólogos no 4.º trimestre de 2025. Depois do T3 ter abrandado para +16,1%, o ritmo voltou a apertar.
O segundo: no mesmo trimestre, as escrituras caíram 5,3% em termos homólogos. Foi o primeiro trimestre do ano em terreno negativo e não apareceu de repente. A desaceleração foi clara ao longo de todo o ano: T1 +16,0%, T2 +15,6%, T3 +4,0%, T4 −5,3%.
Cada um sozinho conta uma história. Juntos, contam outra.
Os números em quatro pontos:
- Índice de Preços da Habitação 4T 2025: +17,5% homólogo | Transacções: 41.789 (−5,3%) — INE
- Avaliação bancária Pen. Setúbal: 2.653 €/m² (+24,8%, +1,7% só em Março) | Portugal: 2.151 €/m² (+16,5%) — INE Mar 2026
- Preço pedido: Barreiro 2.925 €/m² (+26,8%) | Moita 2.702 €/m² (+34,5%) | Lisboa 6.082 €/m² (+9,6%) — Idealista Mar 2026
- Crédito habitação: TAEG 4,77% | Euribor 6M 2,32% | 76% dos novos contratos em taxa mista — BdP/ECB Q1 2026
O que isto provavelmente quer dizer: a oferta encolheu.
Os dois números – preços a acelerar, escrituras a cair – só parecem contraditórios se forem lidos isolados.
Vistos juntos, contam uma história simples: falta produto.
Quando há pouca oferta, acontecem ao mesmo tempo duas coisas. Caem as transacções, porque não há o que vender. E sobem os preços, porque o pouco que aparece é disputado por quem tem capacidade de comprar.
Não é uma teoria. É o que se vê no terreno todos os dias. Os imóveis bem posicionados em preço vendem em dias.. E esses praticamente não chegam aos sites e portais. O que sobra fica meses, e arrasta a média estatística com ele.
A aceleração da avaliação bancária na Península de Setúbal é a confirmação mais limpa que temos: +1,7% num só mês, contra +1,4% na média nacional. Os bancos não avaliam mais alto por capricho… Avaliam mais alto onde o stock disponível encolheu mais.
E é por isso também que Lisboa, com mais oferta acumulada, cresce só 9,6% no último ano — enquanto a Margem Sul, mais apertada, está nos +20% para cima.
Lisboa está a parar. A Margem Sul ainda não.
Lisboa cresceu 9,6% no último ano. O Barreiro 26,8%. A Moita 34,5%.
Almada (+23,1%), Seixal (+17,9%) e Setúbal (+12,9%) ficam todos abaixo destes dois.
Em parte é um “catch-up” – quem começou mais barato sobe mais rápido. Mas em parte, é também o efeito que descrevi acima: a oferta na Margem Sul é mais limitada e a concentração da procura por menos stock empurra os preços com mais força.
O que é menos óbvio é que dentro da própria Margem Sul a divergência está a aprofundar-se. Almada já está nos 3.755 €/m². O Barreiro nos 2.925. Comprar “na Margem Sul” deixou de querer dizer alguma coisa concreta. Cada concelho já tem o seu jogo próprio. E nalguns, já estamos a meio do jogo.
A taxa estabilizou. E 76% sabe disso.
A Euribor 6M está nos 2,454%, a 12M nos 2,747%. O TAEG médio dos novos créditos está nos 4,77%.
Mas não é o nível absoluto que conta. É o que está a parar.
76% dos novos contratos de crédito habitação no primeiro trimestre de 2026 são em taxa mista — fixa nos primeiros anos, variável depois. Quem assina hoje quer fixar a prestação por uns tempos, porque já não conta com a Euribor a continuar a cair ao mesmo ritmo.
Se o BCE continuar a pausa que tem feito, este número ainda sobe.
Em linguagem de café:
O dinheiro mais barato já passou. Quem espera pelo “ainda baixa mais um bocado”, pode estar a esperar pelo que já não chega.
E o que faz quem está a comprar, vender ou investir agora?
Para quem compra, parou de fazer sentido esperar pela altura perfeita. A descida das taxas que faltava, fez-se. Os bons imóveis vendem em dias. Esperar custa em prestação e em preço… e a margem para “negociar com força” é mais estreita do que se conta nas conversas de café.
Para quem vende, é a janela mais favorável que vamos ver tão cedo. Mas pedir muito acima do alinhamento do INE/avaliação bancária deixou de funcionar. O mercado filtra-te para fora nos primeiros 30 dias, e a partir daí o preço final cai sempre.
Para quem investe em arrendamento, a pressão mantém-se em toda a Pen. Setúbal. A oferta continua escassa, e quem souber comprar bem continua a tirar yield acima da média.
Em síntese
O mercado não está a abrandar.
Está a mudar de fase.
Os preços aceleram porque a oferta encolheu e não porque a procura tenha disparado. As taxas estabilizaram, mas a maioria já não conta com mais descida. E uma casa, hoje, deixou de ser um produto de prateleira.
É uma decisão estratégica e financeira e emocional.
Quem entrar no mercado em 2026 sem perceber esta mudança … vai operar com as regras de 2024 num jogo que já não é esse.
Daniel Baptista
Simplificar o imobiliário.